Fazia algum tempo que eu queria reativar este blog e voltar a escrever, porém nunca sentia que era o momento certo. Contudo depois do que aconteceu neste Domingo percebi que eu precisava dar vazão para o que eu sentia da única maneira que eu realmente sei fazê-lo, escrevendo. Então aqui estou mais uma vez após todos esses anos. Antes de iniciar já adianto que não tenho a pretensão de me colocar com o arauto de toda a verdade e razão do mundo, muito menos me coloco na missão de convencer você, caro leitor, a tomar qualquer decisão que seja. Encare isso aqui como um desabafo de alguém que não aguenta mais ver o país em chamas, que não aguenta mais ver pessoas queridas caminhando em direção ao precipício como se lá estivesse a salvação, como alguém que só deseja PAZ. E paz é justamente o que não temos mais neste país. Portanto, leitor(a), peco apenas que leia esse desabafo de coração aberto e se permita refletir sobre as palavras aqui escritas, e a partir daí tomar as próprias conclusões.

Pois bem, antes de mais nada, preciso externalizar a minha mais profunda frustação com a quantidade de pessoas que parecem endorsar um discurso de ódio e vingança. Eu não consigo conceber que metade do país pensa dessa forma, pois este não é o Brasil que eu conheço. Onde foi parar nossa empatia? Nosso carinho? Nossa união? Nosso amor ao próximo? Me peguei questionando se o Brasil que eu conhecia era uma farsa, uma mentira que foi repetida tantas vezes que se apresentou como realidade. E este Brasil que se apresenta diante de nós é o Brasil real: desunido, violento, egoísta, mesquinho, frio. Mas por fim, eu decidi que não, não é este o meu país, o meu povo. Acredito piamente que uma parcela expressiva da população foi coaptada por um movimento que não a representa pelos mais diversos motivos, válidos ou não. E eu ainda tenho muita fé que as pessoas sairão desse transe e enxergarão o precipício diante de si antes que seja tarde. E aqui quero convidá-lo(a) a uma primeira reflexão: Você não sente falta do Brasil de antigamente? Onde discordâncias não eram motivo de discórdia? Quando direita e esquerda se sentavam na mesma mesa após debates produtivos e disputas eleitorais? Em que esse clima de guerra e perseguição nos beneficia, como indivíduos e como povo?

Para além da frustação eu tenho profunda preocupação com os rumos deste país, e me parece que muita gente ainda não entendeu o risco que estamos correndo. A partir do ano que vem a extrema direita terá praticamente maioria em ambas as casas legislativas, Câmara e Senado, e caso Flávio Bolsonaro vença, além do Executivo, ele nomeará 4 ministros do STF. E isso meus caros é preocupante, pois juntando com os 2 ministros nomeados pelo pai do dito cujo, o bolsonarismo obterá maioria no STF. Isso significa que qualquer projeto por mais inconstitucional que seja terá endorso do Supremo, pois este estará aparelhado. O próprio Flávio em entrevista pós 1o turno já falou do desejo de alterar a Constituição. Se isso não é um prenúncio de um golpe de Estado, eu não sei o que mais poderia ser. As pessoas têm a falsa ideia de que golpes são dados tão somente com tanques de guerra na rua, mas na verdade golpes são dados de maneira muito mais silenciosa, através do total aparelhamento e coaptação do Estado e suas instituições. E a verdade é que estamos prestes a dar poderes quase absolutos para um grupo político que não tem apreço algum pela democracia, diria até que tem raiva da pobre coitada. E enganam-se aqueles que acham que a democracia é um direito adquirido e irrevogável. A democracia é na realidade um direito conquistado a duras penas, e ela deve ser protegida todos os dias, pois matá-la é mais fácil do que gostamos de acreditar. Então, leitor(a), se você hoje tem a liberdade de discordar e até esculhambar o governo é porque vivemos numa democracia. Se você pode expressar sua opinião seja ela qual for é porque vivemos numa democracia. E se você pode escolher quem será seu representante nas diferentes esferas do poder publico é porque vivemos numa democracia. Agora, nada disso seria possível se vivêssemos num governo autoritário, muito pelo contrário, seria o governo a decidir que opinião é valida ou não, permitida ou subversiva, liberada ou proibida. E acredite seria permitido muito pouco…

A ascensão desse grupo político me atinge diretamente, primeiro que minha mera existência já vai de encontro com o que esse grupo defende. Como bissexual, candomblecista, juremeiro e declaradamente progressista me reservo o direito de temer pela minha própria segurança, e principalmente pela dos meus amigos e amigas. Inclusive duas amigas minhas irão casar esse ano, e num governo de extrema direita isso com toda certeza não seria permitido. Aí eu lhes pergunto, em que o amor delas é diferente do de qualquer casal hetero? Por que devemos ter medo de sermos nós mesmos? E se você estiver achando exagero recomendo pesquisar o que um certo deputado do PL eleito por São Paulo falou, “vocês têm que ter medo da gente… Iremos colocar a minoria no seu devido lugar.” Isso é claramente uma ameaça. E se os 4 anos de governo do Bolsonaro pai já foram um terror para nós, imagine num do filho com total controle da máquina publica. Por que nossa existência e de qualquer um deveria ser menos importante do que a dos demais? Desde quando ser maioria lhe dar o direito de impor sua vontade e desejos contra o restante da população, ameaçando e desprezando a existência de grupos que só querem viver em paz e sem medo.

Aproveitando que citei o governo anterior, tem algo referente a ele que me afeta muito mais pessoalmente. Durante o período sombrio da pandemia, o senhor Jair Messias Bolsonaro ridicularizou as pessoas que estavam morrendo por falta de ar, chegando a imitá-las de forma irônica e debochada. Pois saiba que a minha queridíssima avó morreu justamente de falta de ar, e me revolta recordar que um presidente da República fez pouco caso do sofrimento dela. Os minutos que duraram seu sofrimento até encontrar a paz nos braços de Deus de nada valem? Como posso sentir um mínimo apreço pelo filho desse ser vil? Como posso acreditar que ele não reproduzira da mesma vilania? E o que mais me dói é ver familiares apoiando esse dito cujo, me levando a questionar se eles realmente amavam minha avó como diziam. Inclusive, quem estuda e trabalha na área de saúde deveria ter abominação pela família Bolsonaro pelo que foi feito na pandemia. Quantas mortes teriam sido evitadas, se o governo da época tivesse sido minimamente decente e ouvisse o que a ciência dizia? Milhares, eu digo, milhares…

Ademais, passei essa semana tentando entender o que levaria uma pessoa a votar no Bolsonaro Jr, e tenho algumas ideias. Veja só, eu entendo a frustação e revolta contra a classe política, é realmente de se emputecer que ano após ano, governo após governo, se continue com a mesma corrupção e que o mesmo grupinho continue enriquecendo ainda mais. Mas será que vale a pena implodir o país para expressar essa revolta? O desejo por mudança é valido, mas nesse caso essa mudança não é uma mudança de verdade, mas um verdadeiro retrocesso. Outra coisa, eu entendo quem detesta e até odeia o Lula, são sentimentos validos por vários motivos. Porém não deixe essa raiva lhe cegar e o(a) fazer abraçar um projeto de destruição. A raiva, assim como o medo, são dois dos piores conselheiros, e falo como alguém que já ouviu ambos mais do que deveria. Além disso, o que esse grupo político usa a fé do povo para seus próprios interesses é ultrajante. São os verdadeiros mercadores da fé e falsos profetas dos quais fomos várias vezes alertados. Eles não se importam com sua fé de verdade, apenas a enxergam como uma ferramenta ideal para conseguir influência, riquezas e principalmente poder. E meu caro leitor, nenhuma droga vicia e corrompe mais que o poder. Essa sensação de controle sobre os demais e de conseguir tudo que almeja é inebriante. E alguns líderes religiosos claramente já sucumbiram a esse vicio, e agora deturpam os ensinamentos de Cristo ao sues próprios interesses. Mas deixarei essa discussão para outra oportunidade, pois ela merece um texto próprio, só quero levantar um questionamento: será que Jesus apoiaria alguém desse movimento? Ele endorsaria o que está sendo dito em Seu nome?

Quero encerrar este texto expressando o quão triste eu dico ao ver pessoas pelas quais tenho profundo apreço apoiando um movimento tão vil. E não fico triste pela discordância em si, pois esta faz parte da democracia. Mas sim porque sei da índole dessas pessoas, elas são boas, gentis, inteligentes, caridosas, amáveis; contudo parecem ter sido coaptadas a defender um movimento que não as representa de forma alguma. Um movimento que defende a violência, a destruição, a perseguição do contraditório, a austeridade brutal de quem pouco tem, a riqueza desenfreada de quem tem tudo. O bolsonarismo não representa o povo brasileiro, nem a mim, nem a você, nem a direita, nem a esquerda; pois nossa essência está na luz, e não nas trevas, por mais que alguns de nós não consigam enxergar isso ainda. Percebam que desde a ascensão da família Bolsonaro, famílias ao redor do país racharam, pais deixaram de falar com filhos, irmãos brigaram com irmãos, netos deixaram de ver avós, amigos de longa data se tornaram inimigos. Vocês não estão cansados desse clima de divisão e guerra? Pois enquanto o bolsonarismo existir enquanto movimento relevante esse clima perdurará. Agora, feche os olhos e imagine que país você quer para você, seus filhos, seus netos. E agora eu lhes questiono, será que esse movimento de extrema direita é capaz de tornar em realidade esse futuro que você imaginou? Ou será que esse constante estímulo a violência e a divisão só tornará esse futuro mais e mais distante? Por fim quero propor uma última reflexão, o que é que lhe move? O que é que reina no seu coração? O que que lhe motiva? Amor? Esperança? Alegria? Compaixão? Fé? Então será que esse movimento realmente lhe representa? Ou será ele a manifestação do exato oposto? No final das contas a sua escolha é só sua, apenas desejo de coração que você não se arrependa dela.

Obrigado por ler até aqui!